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Publicada a 1ª ed. do "Eusébio Macário", a reacção crítica dos realistas-naturalistas, atingidos pela violenta paródia foi tal, que Camilo, alguns meses depois, redige um outro texto, para servir de “Prefácio da Segunda Edição” (de 1880). Atingindo o cúmulo da sua estratégia parodística, afirma estranhar a reacção dos adeptos da estética realista, numa atitude de falsa modéstia e jocosa ingenuidade: “O tímido autor esperava que os artistas não refugassem a obra tracejada, e afirmassem que eu, nesta decrepitez em que faço ao estilo o que os meus coevos de juventude fazem ao bigode, não podia penetrar com olho moderno os processos do naturalismo no romance”. 
O indisfarçável propósito ridicularizador aumenta ainda consideravelmente, quando Camilo declara que o seu pastiche paródico não passa de uma brincadeira rápida e de fácil execução: “Ora a coisa em si era tão fácil que até eu a fiz, e tão vaidoso fiquei do Eusébio Macário que o reputo o mais banal, mais oco e mais insignificante romance que ainda alinhavei para as fancarias da literatura de pacotilha. Se eu não escrevesse de um jacto, e sem intermissões de reflexão, carpir-me-ia do tempo malbaratado”. Para o Camilo trocista, a temporária e falsa conversão ao realismo-naturalismo mais não fora do que um exercício de estilo, pois não esconde as intenções de apoucar e ridicularizar as técnicas e os processos da nova estética romanesca, mesmo quando declara exactamente o contrário: “Cumpre-me declarar que eu não intentei ridicularizar a escola realista”.

Esta ideia de um Cancioneiro Alegre sugeriu-a ao comentador um formoso livro escocês intitulado The Book of Humours Poetry, impresso recente e primorosamente em Edimburgo. É leitura variada, deliciosa, ridentíssima sempre, não das casquinadas que nos distinguem tristemente entre os animais, mas do sentir íntimo de contentamento quando vemos bem solfejada nos versos a prosa ridícula das nossas esquipações.

Ambicionei patrioticamente ver assim um livro de poetas portugueses e brasileiros; mas logo me assaltou a contrariedade de que o poeta, em Portugal principalmente, por via de regra, desabrocha os seus botões de flor às lágrimas da aurora – nasce a chorar; e, se chega a adulto e secou os prantos, é porque foi despachado – arranjou-se; e, enquanto o não arranjam melhor, chora em prosa no seio do deputado amigo, em memoriais plangentes, que entram como sudários na pasta do ministro. Se o ministro já trovou como Serpa, ou Andrade Corvo, Mendes Leal, Tomás Ribeiro, ou Couto Monteiro, o poeta, mais hoje ou mais amanhã, se for de pouco sustento, pode contar que sobreviverá ao seu despacho e enxugará as pérolas dos seus olhos ao plastron do ministro como Horácio limpava as suas remelas às tapeçarias do monopódio de Mecenas.

Entrei a inventariar na minha estante de poetas uns que tinham perecido de amores fulminantes e outros de anemia, antes de chegarem ao capitólio de verificadores de alfândega, de escriturários da Fazenda e ministros da coroa. Esses pouco me deram. Pertenciam à quadra ominosa do sentimentalismo. Estavam mortos para todos os efeitos.

 

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