Também os brancos sabem dançar

Editora Todavia S.A
Free sample

Um romance que transpira música – e igualmente uma das mais vigorosas reflexões contemporâneas sobre identidade. Um músico e escritor angolano chega de trem à fronteira entre Suécia e Noruega. Juntamente com sua banda, ele pretende se apresentar em Oslo. Sem um passaporte válido para mostrar, vivendo num limbo entre as cidadanias angolana e portuguesa desde que escapou da guerra em seu país para poder tocar a vida em Lisboa, ele é detido por tentativa de imigração ilegal e conduzido à delegacia para averiguação. Aflito com a precariedade de sua situação e ansioso para conseguir chegar a tempo para o concerto, começa a se perguntar: como explicar que ele é apenas um pacato artista angolano? Esse é o mote do irresistível romance de Kalaf Epalanga, uma viagem colorida e repleta de memórias pessoais, musicais e literárias em torno da África, Europa e até mesmo do Brasil. Narrado com leveza e graça, Também os brancos sabem dançar é a crônica dos muitos encontros propiciados pela música e pelas palavras.
Read more
Collapse

About the author

Kalaf Epalanga nasceu em Benguela, Angola, em 1978. É membro da banda Buraka Som Sistema, foi cronista do Público e escreve para a GQ Portugal. Atualmente vive entre Lisboa e Berlim. Este é seu primeiro romance.
Read more
Collapse
Loading...

Additional Information

Publisher
Editora Todavia S.A
Read more
Collapse
Published on
May 8, 2018
Read more
Collapse
Pages
304
Read more
Collapse
ISBN
9788593828737
Read more
Collapse
Read more
Collapse
Read more
Collapse
Language
Portuguese
Read more
Collapse
Genres
Fiction / Biographical
Read more
Collapse
Content Protection
This content is DRM protected.
Read more
Collapse
Read Aloud
Available on Android devices
Read more
Collapse
Eligible for Family Library

Reading information

Smartphones and Tablets

Install the Google Play Books app for Android and iPad/iPhone. It syncs automatically with your account and allows you to read online or offline wherever you are.

Laptops and Computers

You can read books purchased on Google Play using your computer's web browser.

eReaders and other devices

To read on e-ink devices like the Sony eReader or Barnes & Noble Nook, you'll need to download a file and transfer it to your device. Please follow the detailed Help center instructions to transfer the files to supported eReaders.
Reparem, a seguir a Luanda, o lugar onde todas as idiossincrasias deste povo ganham maior visibilidade é Lisboa. Daí, mesmo que eu quisesse, é impossível ficar imune a essa banga, basta alguém identificar-me o sotaque (ou a ausência dele).A verdade é que a vaidade angolana já se tornou monumento de fama internacional. Uma atração turística ambulante, que onde quer que estejam angolanos, uma multidão de curiosos aparece para tirar fotografias, entregar currículos ou propor negócio, como me aconteceu recentemente. Quando terminava o meu almoço, sai da cozinha o proprietário e propõe-me que lhe compre o restaurante, com todo o recheio, licenças, cozinheiros e empregados de mesa incluídos. E eu, do alto da minha vaidade, tão afetado pela crise financeira em Portugal quanto o pobre senhor, lanço-lhe a pergunta: Quanto é que custa?Kalaf, benguelense, criado no seio de uma família de funcionários públicos, com ligações à vila da Catumbela, lugar que visita com regularidade. A música e os palcos do mundo lhe permitiram traçar um mapa afetivo das pessoas que habitam a sua memória, assim como os locais que o marcaram – da fábrica de açúcar do Cassequel ao Caminho de Ferro de Benguela, da Restinga do Lobito à rua Jacob de Paiva, onde aprendeu a equilibrar-se numa bicicleta. A aventura poética teve início em finais dos anos 90, em Lisboa, numa altura em que a cidade ensaiava novas linguagens rítmicas, buscando novos caminhos para a música urbana feita em português. Neste percurso cruzou-se com os pioneiros do movimento de música eletrónica, contou estórias e gravou dois «disco- falados» que lhe valeram o título de Poeta-Cantor, A Fuga... e Strategies And Survival. Com o produtor João «Branko» Barbosa, crente de que era possível exportar Lisboa para mundo, fundou a Enchufada, núcleo de produção musical, editora independente e incubadora de ideias como Buraka Som Sistema. Em 2011 é editado, pela Caminho, o seu primeiro livro de crónicas, Estórias de Amor para Meninos de Cor.
Um jovem do interior do Rio Grande do Sul, no início da década de 1970, ao se perceber diferente, homossexual, tem uma crise existencial. Tenta o suicídio e convence parte de sua família a transferir-se para a capital do estado, na busca de realizar-se profissionalmente, aproveitar o anonimato para exercer sua individualidade, diminuir sua ansiedade, mas, acima de tudo, fugir do preconceito, muito maior naquela época do que nos dias de hoje. Na cidade grande, conhece e desfruta todos os prazeres que ela pode proporcionar, mas também os riscos e perigos de suas noites e madrugadas. Não se esquece de seus sonhos e se realiza profissionalmente, mas não afetivamente, fato que reforça em sua personalidade a baixa autoestima e, em consequência, um comportamento patológico e autodestrutivo. Transita e convive em todos os ambientes gays (guetos), mas tem sedução pelo baixo mundo e se torna um sobrevivente de todos esses riscos. Vivencia todos os dramas da década de 1980 e a morte de boa parte de seus amigos, mas, apesar de não sair ileso, sobrevive e faz o caminho inverso, voltando para sua terra natal. Nesse retorno, mais uma transformação se dá, e o que parecia tão distante acontece: volta aos bancos acadêmicos e, em 11 anos, conclui duas graduações e uma pós. Os excessos de juventude cobraram o seu preço. Tornou-se dependente de uma cadeira de rodas. Em consequência disso, foi tomado de uma grande fragilidade e vulnerabilidade tanto física como emocional. Há pouco tempo, viveu um momento limite. O que parecia o fim foi a oportunidade para mais uma transformação, e o resultado disso está nestas páginas.
 Regina era uma mulher exuberante, extremamente comunicativa, cheia de vida e plena de energia, que nascera absolutamente transparente. Nem que quisesse, saberia esconder seus sentimentos. Enquanto não os externasse de forma completa, não se tranquilizava. Impetuosa e impulsiva, jurava que nenhum homem iria abandoná-la, como o seu pai à sua mãe. Regina não era uma mulher de cruzar os braços e tomou a frente de suas escolhas. Não suportava a solidão, pois não queria acabar seus dias sozinha como sua mãe. Regina não precisava de um leito somente para si. Desde que o homem respeitasse o espaço para a seção de cosméticos e vestuário, tudo o mais deveria ser compartilhado. Até para conhecer melhor com quem ela estava lidando. Contudo, abominava casar e virar empregada do marido ou ser do lar ou especialista em prendas domésticas. Regina simplesmente não precisava de leme para guiá-la, nem nunca ficou sem rumo na vida. Não queria um homem sem a menor aptidão para a vida em comum e tampouco que a encerrasse numa gaiola. Contudo, não bastaria o homem se interessar; teria que ficar de quatro por ela. Uma quedinha não serviria; tinha que ser uma baita fixação. Se os homens não entendem nada da cabeça de mulher, Regina era uma mulher de coragem que os poria no seu devido lugar. Para não ficar à mercê de arrebatamentos pueris, viagens delirantes, fascínio por galãs de meia-tigela, preferiu estabelecer relações que pudesse controlar. E beleza não põe mesa. A utopia de Regina era encontrar um homem que procurasse conhecê-la bem e mapeasse seus piores defeitos, não se perturbando com o achado. Era uma mulher de sangue quente, gritando para quem quisesse ouvir: “eu quero viver!”. Intensamente. Queimar-se debaixo do sol de meio-dia em pleno verão era visceral para o seu estado de espírito. Variar de roupas era o seu lema. Regina provocava admiração ao se dirigir a quem quer que fosse. Falta de jeito ou timidez não se encaixavam numa personalidade tão efusiva. Uma mulher que não se comunicava por entrelinhas, fazia questão de mostrar o avesso do seu temperamento e não tinha papas na língua. Não deixava para amanhã o que podia dizer hoje. Regina, rainha, queria reinar sobre sua vida.
©2018 GoogleSite Terms of ServicePrivacyDevelopersArtistsAbout Google|Location: United StatesLanguage: English (United States)
By purchasing this item, you are transacting with Google Payments and agreeing to the Google Payments Terms of Service and Privacy Notice.