Curiosamente, costurando as imagens de dor (a impotência diante "do que poderia ter sido", a mãe falecida, os sonhos esmagados, "não [ter] ninguém em mim"), o humor é uma das marcas de Vagoneta, mas para cada sorriso há um travo profundo. Porque esse humor talvez seja da mesma natureza daquele "só rindo mesmo" que soltamos diante do absurdo naturalizado nas notícias, da injustiça como regra no cotidiano, das adversidades que se sucedem. E não há conformismo ou cinismo aí, porque, no fundo, é sua forma de destruir qualquer falsa pacificação com os limites que o "passado" implica.
Os poemas estão cheios de um desejo que não se dobra, até explodir na imagem de um oceano dentro do peito em que o poeta quer se (nos) lançar com Vagoneta. Sua voz, que ora nos chama de lugares muito concretos, ora nos arrasta para dentro do sonho, parece falar com alguém (um você, um tu) muito específico, com afeto e proximidade, e sempre joga sua rede larga para longe, com agressividade ou sarcasmo, mas sobretudo com coragem — a coragem de quem abre caminhos.
Luiz Mauricio Azevedo nasceu em Cascavel (PR), em 1980. Poeta, ficcionista, editor e crítico literário, é doutor em teoria e história literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Entre suas diversas obras, destacam-se Estética e raça: ensaios sobre a literatura negra (Sulina, 2021), o livro de poemas Os mortos (Figura de Linguagem, 2022), a coletânea de contos A costura invisível da bola (Figura de Linguagem, 2024), vencedor do prêmio Açorianos, e o romance Salitre (Zouk, 2025).