Desde a primeira linha, Frida Alexandr surpreende o leitor, interpelando-o com uma pergunta. Mesmo em 1967, quando suas memórias foram publicadas em edição restrita, provavelmente poucos responderiam afirmativamente à sua questão.
Filipson foi a primeira colônia judaica oficial do Brasil, formada por imigrantes judeus provenientes da Bessarábia (na região onde atualmente se localiza a Moldávia). Os pais e irmãos mais velhos de Frida chegaram com o grupo pioneiro, em 1904. Em Filipson: memórias de uma menina na primeira colônia judaica no Rio Grande do Sul ( 1904-1920), Frida faz um registro de sua infância na colônia onde nasceu até a melancólica despedida, em 1920, quando a família decide partir novamente.
Entre os dois pontos, desliza a memória de Frida, que organiza os fatos sem a preocupação de ordená-los no tempo. O importante é como as cenas — que envolvem seus familiares, sua passagem pela escola, as dificuldades financeiras da família, as ameaças representadas por uma natureza nem sempre hospitaleira — repercutem em sua sensibilidade. Frida se vale da linguagem para transmitir a emoção na forma como a vivenciou.
Filipson, com posfácio da pesquisadora e escritora Regina Zilberman, é um testemunho de uma etapa do processo de adaptação e preservação dos judeus do leste da Europa no Brasil. Mas esse caráter documental é acompanhado pela recuperação sensível daqueles momentos fundadores, como se a autora, à maneira de Proust, fosse em busca das vivências daquele tempo, para transmiti-lo a um leitor que pouco conhece sobre o período.