Os manuscritos presentes nesta edição cobrem treze desses anos. O primeiro caderno tem como ponto de partida a chegada da família à fazenda Paraizo, em São Carlos do Pinhal, e retraça as experiências vividas por Brazilia dos seis aos dez anos. O segundo caderno vai até seu décimo sexto aniversário. O terceiro tem início no dia em que Brazilia completa dezessete anos, em 24 de maio de 1904, e termina logo depois de seu casamento com o primo Carlos Amadeu de Arruda Botelho, ocorrido cerca de dois anos mais tarde.
Os principais cenários de suas recordações são a fazenda Paraizo, onde vivia com seus pais e irmãos, e São Paulo, onde a família passava dois meses por ano na casa que mantinham na capital. Nos dois cenários, sobressaem costumes ditados pela tradição e pela temporalidade dos cafezais.
Com seu olhar atento e minucioso, Brazilia recorda as brincadeiras com os irmãos e primos, as aulas em casa com preceptoras europeias, a relação com os empregados da fazenda, as festas no terreiro, as receitas de doces, a lida diária nos cafezais, o trabalho de costura e de contabilidade da fazenda, as touradas na praça da República e o convívio com a alta sociedade paulistana nas temporadas na capital.
Com descrições pormenorizadas do cotidiano, os registros aqui publicados reforçam a dimensão histórica da economia cafeeira na transição do século XIX para o século XX e jogam luz sobre a atuação feminina em domínios historicamente tratados como exclusivos dos "barões do café". Preparada para desempenhar o único papel que cabia às mulheres da época, Brazilia terminou legando para a posteridade um ponto precioso para entender a história do Brasil.
Brazilia Whitaker Oliveira de Lacerda nasceu em 24 de maio de 1887 (provavelmente em São Paulo). Casou-se em 24 de março de 1906 na casa de seus pais, em São Paulo, com seu primo de segundo grau Carlos Amadeu de Arruda Botelho. Pertencente à elite agrária paulista, Brazilia era neta do barão de Arary, neta do comendador Justiniano de Mello Oliveira, bisneta do visconde do Rio Claro e nora do conde do Pinhal.
Logo após seu casamento, em 1906, saiu da Fazenda Paraizo para iniciar a vida conjugal na Fazenda São Carlos, em Jaú. Partiu acompanhando o marido, e foi proprietária rural e cafeicultora. Teve nove filhos e faleceu em 19 de julho de 1966, em São Paulo.
Jorge Caldeira é autor de doze livros sobre história do Brasil, entre os quais se destacam Mauá: empresário do Império e História da riqueza no Brasil. Seus temas cobrem desde a Colônia ( O banqueiro do Sertão: biografia do padre e empresário Guilherme Pompeu de Almeida — 1656-1713), até tempos recentes ( Ronaldo: glória e drama no futebol globalizado).
A partir de 1995, quando lançou o conjunto livro-cd-rom-site Viagem pela história do Brasil, passou a utilizar recursos de tecnologia da informação em suas produções. Disso resultaram obras como o site www.obrabonifacio.com.br — a maior reunião existente de documentos sobre o patriarca da Independência —, os nove volumes da coleção Formadores do Brasil (além da direção-geral, organizou os volumes José Bonifácio de Andrada e Silva e Diogo Antônio Feijó), e o livro Brasil: a história contada por quem viu, uma coletânea que reúne testemunhos pessoais de eventos ocorridos ao longo de cinco séculos. Sua empresa, a Mameluco Edições, presta serviços de comunicação e informatização de arquivos históricos.