Se um dos aspectos mais admiráveis da poesia contemporânea é a diversidade de formas encontradas pelos poetas para falarem de política (num arco amplo que vai do depoimento sobre a experiência subjetiva até o discurso abertamente engajado), os poemas de Benassi são a expressão de uma maturidade nessa tarefa coletiva de flagrar e afrontar as fraturas do tempo presente. Sob minuciosa camada lírica, seus versos acusam a conflituosidade tão variada em que estamos imersos, afundando, sufocando.
Quando estica a voz em direção a Leonardo Fróes ou ao pai, a Maradona ou a Orides Fontela, ou imagina encontrar Walter Benjamin como um judeu "vivo e contemporâneo" nas ruas do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, a poeta de O salto do tigre se nutre de força e delicadeza para enfrentar esse mundo em que "os que escrevem/ apanham a caneta pela mão e/ apanham/ apanham/ apanham". Seu olhar nunca evita embates — do machismo à luta de classes, da destruição ambiental ao colonialismo, do luto à desigualdade social —, mas é sempre muito hábil em nos lembrar que há formas de vida e de luta mais bonitas, inteligentes, precisas. Como um tigre sabe, como um tigre salta.
Isabela Benassi nasceu em 1992, em São Paulo. Formou-se em letras clássicas pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente cursa doutorado em literatura portuguesa na mesma universidade. É editora, tradutora e, desde 2016, publica poemas e textos de crítica em revistas e antologias.