São duas horas da manhã e uma mãe pergunta a um chatbot se o filho de dois anos tem autismo. A cena, hoje comum, abre o livro e organiza sua pergunta central: podemos confiar no que essas máquinas produzem quando o assunto é o cuidado de pessoas autistas? Para responder, o capítulo de abertura explica em linguagem acessível como funciona uma IA generativa — a "máquina de prever a próxima palavra", o "papagaio que erra com confiança" e o risco das alucinações — e mostra por que isso exige avaliação científica rigorosa.
A obra reúne sete estudos que compartilham a mesma espinha dorsal metodológica: manipular o nível de estruturação do prompt como variável independente e avaliar criteriosamente a qualidade dos produtos gerados, sempre ancorados nos princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e nas características do TEA. Os capítulos avaliam, entre outros temas, a orientação a pais sobre sinais precoces de autismo com o Gemini 2.5 Pro e o M-CHAT-R/F; um RPG mestrado por IA para ensinar habilidades sociais a adolescentes; histórias sociais digitais para autorregulação emocional; e aplicativos-tutoriais gerados por IA para apoiar pais no manejo de comportamentos desafiadores por meio do Reforçamento Diferencial de Comportamentos Alternativos (DRA).
O fio condutor de todos os resultados: a qualidade do que a IA entrega depende criticamente da qualidade do comando que recebe. As ferramentas podem informar com correção, traduzir critérios técnicos em linguagem para famílias e até construir aplicativos funcionais a partir de instruções em português comum — mas ainda alucinam referências, às vezes falam difícil demais e nunca substituem o profissional.
Escrito para públicos que raramente se encontram na mesma estante — pais e cuidadores, professores e clínicos, estudantes e pesquisadores —, o livro propõe uma postura clara diante da tecnologia: nem deslumbramento, nem pânico, mas criticidade informada. Entre a ciência e o cuidado, o caminho não é escolher um lado, e sim colocar a IA à prova, com método, antes de colocá-la nas mãos de quem cuida.
Organização: Márcio Borges Moreira et al. · Editora do Instituto Walden4 · Brasília, 2026.
Doutor em Ciências do Comportamento pela Universidade de Brasília. Mestre em Psicologia e Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Atualmente, é professor da graduação e do Mestrado em Psicologia do Centro Universitário de Brasília e diretor do Instituto Walden4. É co-autor do livro *Princípios Básicos de Análise do Comportamento* e de outros livros, capítulos e artigos científicos com temas relacionados à Análise do Comportamento. Projetos de pesquisa atuais: Psicoterapia assistida por inteligência artificial; Uso de inteligência artificial para apoio a pais e profissionais na área do autismo; Automação de treinamentos para profissionais e paraprofissionais que lidam com pessoas diagnosticadas com autismo; Automação de procedimentos para o ensino de conceitos psicológicos; Formação e mudança de atitudes preconceituosas; Mensuração de comportamentos na prestação de serviços de psicologia.