Como sociedade, temos medo de dialogar sobre classe, muito embora a desigualdade cada vez maior entre a riqueza e a pobreza já tenha estabelecido o cenário para a constante e prolongada luta de classes. Como uma cidadã que mudou da classe trabalhadora para o mundo da abundância, eu sofri por muito tempo para compreender a classe em minha vida, para aceitar o que significa ter tanto enquanto muitas pessoas têm tão pouco. No meu caso, minha família e minhas amizades estão entre essas pessoas. Assim como a vasta maioria das mulheres neste país, eu acredito no cuidado e no compartilhamento. Quero viver em um mundo onde haja o suficiente do básico e do necessário para todo mundo. A aplicação dessas crenças na experiência cotidiana não é fácil nem simples.
Estes ensaios sobre classe abordam questões de responsabilidade nacional e pessoal. Eu escrevo sobre os problemas de classe que mais afetam intimamente a minha vida e a de muita gente que está tentando encontrar maneiras de ser responsável, que acredita na justiça, que deseja se posicionar. Escrevo pessoalmente sobre a minha trajetória do mundo da classe trabalhadora para a consciência de classe, sobre como o classismo solapou o feminismo, sobre solidariedade com as pessoas pobres e sobre como enxergamos as ricas. É claro que estes ensaios abordam consumismo e as formas com que o desejo por abundância cria uma política da ganância.
— bell hooks, no prefácio
bell hooks nasceu em 1952 em Hopkinsville, então uma pequena cidade segregada do Kentucky, no sul dos Estados Unidos, e morreu em 2021, em Berea, também no Kentucky, aos 69 anos, depois de uma prolífica carreira como professora, escritora e intelectual pública. Batizada como Gloria Jean Watkins, adotou o pseudônimo pelo qual ficou conhecida em homenagem à bisavó, Bell Blair Hooks, "uma mulher de língua afiada, que falava o que vinha à cabeça, que não tinha medo de erguer a voz". Como estudante, passou pelas universidades de Wisconsin, da Califórnia e Stanford, e lecionou nas universidades Yale, do Sul da Califórnia, Oberlin College e New School, entre outras. Em 2014, fundou o bell hooks Institute. É autora de mais de trinta obras sobre questões de raça, gênero e classe, educação, crítica cultural e amor, além de poesia e livros infantis, das quais a Elefante já publicou Olhares negros, Erguer a voz e Anseios, em 2019; Ensinando pensamento crítico, em 2020; Tudo sobre o amor e Ensinando comunidade, em 2021; A gente é da hora, Escrever além da raça e Pertencimento, em 2022; Cultura fora da lei e Cinema vivido, em 2023; Salvação e Comunhão, em 2024; e A vontade de mudar, em 2025.