Caderno de lascas é um poema, ou uma série de poemas, mas sua forma transborda. Ao mesmo tempo, é um ensaio, ainda que também escape para outros registros. Essa forma oscilante, mutante, entre verbal e visual, forja uma reflexão sobre o trabalho do poeta e o do artista em geral, como trabalho mesmo, ação concreta do corpo, da mente, das ferramentas sobre determinados materiais, revelando a linguagem das coisas e, claro, as coisas da linguagem, testando diferentes escalas para o próprio gesto.
Nessa oficina aberta, confluem os trabalhos — as artes — de escultores, gravadores, tradutores, mas também de soldadores, marceneiros, caldeireiros. Interessa ao autor chegar até o lugar em que as duas acepções de pintor, seja de quadros ou de paredes, não se distinguem. Por outro lado, essas "lascas" escritas, que partem do ateliê do gravurista, convidam a entrar na obra de um dos mais importantes poetas em atividade. No fundo, não há divisões entre as diversas práticas de Alberto Martins: dá para ouvir o martelo bater, a faca rasgar e o formão escavar sob suas palavras.
Alberto Martins nasceu em 1958, na cidade de Santos (SP). Poeta, ficcionista, editor e artista plástico, é autor dos livros Cais (Editora 34, 2002), A história dos ossos (Editora 34, 2005), Em trânsito (Companhia das Letras, 2010), Violeta (Editora 34, 2023) e Boris e Marina (Companhia das Letras, 2025), entre outros.