O que essas conversas nos mostram são relações intensas, truncadas pela incompreensão, pelos silêncios (nunca ouvimos, do outro lado, a voz do "você"), pela violência. Há o forte desejo de escapar dessa espiral, mas os caminhos não são simples: "sei bem do que viver é capaz". Há fúria movendo-se por dentro, mas, de repente, tudo se enrosca ao temor de que já seja tarde demais para que as coisas mudem de rumo: "uma mágoa não se arrasta/ tão facilmente de um canto a outro/ sem ferir o chão da casa".
O pai, a mãe, os deuses, os amantes são convidados a entrar nos poemas, mas é sempre ríspida a recepção: "O amor é um cão/ em cólera". Talvez venham daí, desse atrito de que elas nunca fogem, a densidade e a força dessas palavras colhidas na vida, que têm "cor, ritmo, hálito, sabor", como afirma Jorge Alencar na orelha do livro.
Moisés Alves nasceu em Salvador, em 1982. Doutor em letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), é professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Autor de coisas que fiz e ninguém notou mas que mudaram tudo (Circuito, 2018) e mangue (martelo casa editorial, 2021), entre outros livros.