Em sua vasta obra, o encantamento com todas as formas de vida encontradas no caminho — flores, pássaros, frutos, gatos, cachorros, pedras, os traços de cada estação — cria uma atmosfera em que o sujeito desaparece, quase em silêncio, para que o mundo fale e brilhe. Ao mesmo tempo, é admirável a densidade dessa experiência individual e, muitas vezes, solitária (a poeta adorava fazer longas caminhadas sozinha). E isso a aproxima de outros grandes poetas que se deixaram fundir à paisagem, como uma “vírgula” entre outras na vastidão do existente, desde os mestres japoneses do haikai até seu compatriota Walt Whitman ou o brasileiro Leonardo Fróes.
Em tradução da poeta portuguesa Patrícia Lino, professora na Universidade da Califórnia (UCLA), Pequenas glórias reúne três livros de Mary Oliver: A folha e a nuvem (2000), O que sabemos (2002) e Vida longa (2004). Como afirma Natalie Diaz no prefácio, esses volumes formam uma “trindade” na obra madura da poeta. A mescla de versos, poemas em prosa e ensaios também faz jus à forma como a poesia e o pensamento de Oliver se desenvolveram durante toda a sua vida. Bem mais do que se importar com as fronteiras entre gêneros, sua atenção esteve sempre devotada a questionar o que estamos fazendo aqui, com os dois pés bem firmes sobre este planeta redondo.
Mary Oliver nasceu em Maple Heights, Ohio (EUA), em 1935. Seu livro de estreia, No Voyage and Other Poems, foi publicado em 1963, e o último, Felicity, em 2015. Entre os diversos prêmios que recebeu por sua extensa e aclamada obra como poeta e ensaísta, destacam-se o Pulitzer (1984) e o National Book Award (1992). Morreu em Hobe Sound, Flórida, aos 83 anos.