Para mostrar esses corpos/vidas em que a história se elabora, o poeta dispõe em suas páginas uma paisagem humana desoladora: o trabalhador cujos "passos são uma linha de montagem" ("se a polícia o parar na rua/ vão querer saber a origem dessa miséria"); cantores desesperados, projetando sua voz desde a beira do abismo; empregadas que passam pela portaria de um condomínio como imigrantes forçadas a cruzar uma fronteira para sobreviver; alguém que se tranca no quarto na noite de Natal; o cheiro do corpo morto do pai que "permanece como uma história inacabada"; os refugiados, como o menino Alan Kurdi, que o poeta enxerga no lugar de banhistas numa praia qualquer ("há braçadas perdendo força/ e se desenham cruzes na linha do mar/ e há quem se banhe de costas para o horizonte/ e flutue distante das cruzes").
Se "a compreensão das coisas está na poesia", é preciso escrever cada verso para revelar "a política no rosto do tempo". Nas palavras da poeta e tradutora Simone Brantes, que assina a orelha, "o que impressiona neste livro é a assertividade, o modo pelo qual a linguagem captura e recoloca à nossa frente, desnudada, a nossa condição presente, o estado do nosso mundo e de nossa alma". E, mesmo cercada pelo "fascismo [...] que nos enterra aos poucos", não há resignação na voz que denuncia: "entre a batalha e o pessimismo/ impera um sorriso". E amamos e sofremos porque "não somos feitos de ferro/ e [...] tudo não passa de orvalho". E papoulas, quem sabe?
Andreev Veiga nasceu em Belém (PA), em 1981. Publicou os livros de poemas diálogonuvem (Fundação Cultural do Pará, 2016) e O mergulho do afogado (Kotter, 2019), e organizou a antologia O vento continua, todavia: dez vozes da poesia contemporânea em Belém (Kotter, 2020).